domingo, 25 de janeiro de 2009

Sem motivos para arrependimentos

Christopher Hitchens/Revista Época

Sim, sim. Eu estava nas ruas do centro de Washington, circulando entre os entusiasmados e os crédulos. Sim, eu estava no National Mall no domingo, e não mais choroso do que quem estava a meu lado, mas nem também muito menos. Sim, era eu, em um dos bailes, fazendo um pouco o papel de idiota enquanto chacoalhava ao som de Biz Markie, o DJ da elite negra de Washington. Em outras palavras, eu não reconsideraria meu voto em Barack Obama. Mas quero dizer por que eu ainda não gostaria que Al Gore tivesse vencido George W. Bush em 2000 ou que John Kerry tivesse saído vencedor em 2004.

No filme W, de Oliver Stone, que não é muito bom, mas surpreendentemente foi muito bem recebido, há um acontecimento que não aparece na tela. A colisão dos dois aviões com dois grandes arranha-céus não é mostrada (e faz-se referência a isso apenas uma vez, muito indiretamente). Não pode ser porque não ajudaria em nada para fazer uma imagem ruim de Bush. Em geral, é senso comum que ele agiu de maneira errática naquele dia e fez o pior discurso de seu mandato à noite. Então, por que Stone perderia a chance de pôr essa cena no filme?

A resposta é que são os acontecimentos do 11 de setembro de 2001 que explicam a transformação de George Bush de um conservador a favor do Estado mínimo meio preguiçoso em um político intervencionista. O problema dessa análise, do ponto de vista da esquerda, é que ela dá pouca margem para a especulação sobre sua relação edipiana com seu pai, suas fantasias frustradas de vingança contra Saddam Hussein, o alcoolismo sem bebida, e todo o resto.

Nunca somos convidados a nos perguntar o que teria acontecido se os democratas estivessem no poder naquele outono. Mas poderia valer a pena especular por um segundo. A Lei do Antiterrorismo e da Pena de Morte Efetiva, aprovada rapidamente no Congresso por Bill Clinton depois da explosãozinha da bomba de Oklahoma, foi corretamente descrita pela União Americana pelas Liberdades Civis como o pior retrocesso da causa dos direitos dos cidadãos. Dado esse precedente e multiplicando-o nas devidas proporções, podemos ter bastante certeza de que escutas telefônicas e ficar jogando água na cara de interrogados teriam se tornado coisas familiares e que teríamos até ouvido algumas defesas dessas práticas pela esquerda. Não sei se Gore teria pensado em usar Guantánamo, mas isso levanta a questão interessante – que agora vai ser enfrentada pelo novo governo – sobre onde devem ser mantidos esses indivíduos perigosos, principalmente porque não se espera que eles sejam soltos. Haveria uma prisão sórdida em algum lugar, ou muito mais mortos no campo de batalha, pode ter certeza.

Por que eu não lamento que George W. Bush tenha
derrotado Al Gore e John Kerry

A Guerra do Iraque poderia ter sido evitada, apesar de tanto Bill Clinton como Al Gore terem dito repetidas vezes que outro round definitivo com Saddam Hussein era, devido a seu flagrante desafio a todas as decisões relevantes da ONU, inevitável no futuro. E a desvantagem de evitar a intervenção no Iraque é que um ponto de estrangulamento da economia mundial ainda estaria sendo controlado por uma família psicopata que mantinha especialistas em armas de destruição em massa à mão e que pagava homens-bomba suicidas pela região. Em suas entrevistas de despedida, o presidente Bush não conseguiu encontrar muita coisa para dizer em sua defesa nesse ponto, mas acho que os historiadores não vão chegar à conclusão de que a remoção de Saddam Hussein era uma coisa que a comunidade internacional deveria ter adiado por mais tempo.

As falhas óbvias – em particular a arrogância e a insanidade cada vez maiores dos ditadores do Irã e da Coreia do Norte – pelo menos são falhas em seus próprios termos: a falha em corresponder à retórica original e a falha em combinar imperativos dos direitos humanos com os de geoestratégia e segurança. Novamente, não está claro para mim como qualquer outro governo teria se comportado. O colapso do sistema financeiro tem raízes em uma tentativa de longa data, que não é vergonhosa em si, de colocar a casa própria ao alcance até dos menos favorecidos.

Então, a velha pergunta “comparado a quê?” não permite superficialidade.“Comparado a quê?” não é bem uma defesa. E nem esta coluna tem exatamente a intenção de ser uma defesa. É só que há um elemento de soberba em toda a atual onda de esperança, e começo a ficar com medo de como vai ser a sensação do dia seguinte.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Filme reacende polêmica em torno do aborto

Documentário, com depoimentos defendendo a descriminalização da prática, recebeu R$ 80 mil da Fiocruz

Bernardo Mello Franco - O Globo

BRASÍLIA. A polêmica sobre a legalização do aborto, que opõe o Ministério da Saúde à Igreja e à bancada evangélica no Congresso, vai ganhar um novo capítulo nas telas. A Fundação Oswaldo Cruz, vinculada à pasta, liberou R$ 80 mil para a filmagem do documentário “O fim do silêncio”, uma coleção de depoimentos de mulheres que interromperam a gravidez e defendem a descriminalização da prática. Em fevereiro, o órgão vai distribuir gratuitamente duas mil cópias em DVD para escolas e entidades feministas.

O projeto venceu 35 concorrentes e foi o único documentário de média-metragem selecionado no primeiro edital de vídeo da Fiocruz, referência em pesquisa e produção de vacinas.

Também receberam patrocínio filmes de ficção que abordam temas de saúde.

Documentário é “claramente a favor do aborto”, diz diretora A diretora Thereza Jessouroun diz ter idealizado o roteiro ao ouvir declarações do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, a favor da descriminalização do aborto. De acordo com ela, o projeto se materializou após a abertura do edital da Fiocruz, cuja direção é nomeada pelo ministro.

— Assim que tomou posse, o ministro Temporão disse que o aborto é uma questão de saúde pública. Achei a declaração corajosa e comecei a pesquisar o tema, até sair o edital da Fiocruz — conta.

Thereza nega que seu documentário seja uma peça de propaganda, mas admite que o filme só dá espaço a um dos lados da discussão.

— Documentário não é como jornalismo, que tem a obrigação de ser imparcial. Tem que ter posição marcada, e este é claramente a favor do aborto — afirma.

A cineasta diz que chegou a entrevistar especialistas contrários e favoráveis à prática, como previa o projeto original, mas optou por manter apenas a participação das mulheres. A pedido da direção da Fiocruz, o material descartado será incluído nos extras do DVD.

— Ficava muito fraco. Editei de mil maneiras e não ficava bom — diz ela, sobre a versão prevista originalmente.

Antes do lançamento, filme já desperta crítica de religiosos Há um mês no YouTube, o trailer de “O fim do silêncio” já recebeu mais de 2,5 mil visitas e tem provocado um debate caloroso entre os espectadores.

O filme mostra os rostos das entrevistadas, que são identificadas com nomes e profissões. Na montagem, os depoimentos foram encadeados por estimativas segundo as quais 200 mulheres morrem em cerca de um milhão de abortos realizados a cada ano no país. A fita entregue à Fiocruz tem 52 minutos, mas a diretora pretende reaproveitar o material numa versão estendida para a tela grande.

Mesmo antes do lançamento, o filme já desperta críticas de religiosos. Dom Antonio Augusto Dias Duarte, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio e integrante da Comissão de Vida e Família da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), critica o patrocínio da Fiocruz:

— Não me parece correto, do ponto de vista ético, financiar com dinheiro público um filme que defende posições pessoais do ministro.

Diretor da Fiocruz diz que debate é bem-vindo. Um relatório sobre a concorrência, disponível no site da fundação, informa que, “como critério principal, ficou estipulado que os projetos a serem selecionados devem estar de acordo com o ideário da Fiocruz”.

O diretor do selo Fiocruz Vídeo, Umberto Trigueiros, diz que o documentário foi selecionado por uma comissão integrada por críticos e não sofreu interferências do órgão, além do pedido para incluir argumentos pró e contra o aborto nos extras do DVD. Ele afirma que o debate é bem-vindo: — A Fiocruz é uma instituição acadêmica, tem que estar aberta à polêmica.

'Devíamos ter saído dos territórios em 1967'

Historiador polêmico em Israel, Benny Morris defende ataque a Gaza, mas diz que manter ocupação foi erro

ENTREVISTA Benny Morris

JERUSALÉM. Um dos mais controversos historiadores de Israel, Benny Morris, da Universidade Ben Gurion, transformou-se numa figura com quem ninguém quer falar. Os israelenses acusam-no de odiar o país, e os árabes de ser parcial e contar apenas os capítulos da História que lhe convêm.

Mesmo autores considerados “revisionistas”, como Ilan Pappé, criticaram sua última obra — “1948, a história da primeira guerra árabe-israelense”. Aos 60 anos, Morris parece não se incomodar com críticas e deixa escapar paixão e intensidade pouco vistas no meio acadêmico quando o assunto é o conflito árabe-israelense. Morris nasceu num kibutz e foi ativista de movimentos juvenis de esquerda, recusando-se a prestar serviço militar nos territórios palestinos. Os paradoxos o acompanham e suas opiniões podem confundir um leitor desatento. Ele defende os bombardeios a Gaza e chama o Hamas de “anormal”. Segundo Morris, a paz só será possível noutra geração e o estabelecimento de dois Estados para dois povos é o único caminho para o fim do conflito.

Renata Malkes Especial para
O GLOBO

GLOBO: Numa provocação, o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, afirmou que Israel não aprendeu nenhuma lição da guerra no Líbano e que os bombardeios aéreos a Gaza serão inúteis. Que rumos essa ofensiva vai tomar?

BENNY MORRIS: Nasrallah está certo. Nesta guerra privada entre Israel e o Hamas, não vejo soluções. Os bombardeios eram necessários, já que nenhum país pode ser atacado diariamente com mísseis sem reagir. Os bombardeios têm que continuar. É preciso dar um tapa forte no grupo.

GLOBO: Mas o preço é a destruição, a morte de civis e mais uma mancha na imagem de Israel no cenário internacional...

MORRIS: Não há alternativa. Infelizmente civis morrem em guerras. O Hamas prega a destruição de Israel e a única linguagem que compreende é a da força. Eles gostariam de ter o poderio militar israelense e eliminar o país do mapa. Se fossem uma instituição normal pelos conceitos ocidentais, talvez houvesse outra maneira. O Hamas é anormal. São fanáticos e religiosos que querem eliminar quem pensa diferente. O Hamas é o mal.

GLOBO: A conquista da Faixa de Gaza, em 1967, na Guerra dos Seis Dias, pode ser considerada um dos maiores erros estratégicos da História de Israel?

MORRIS: Hoje vê-se que as conseqüências foram desastrosas, mas, na época, Israel não teve alternativa. Quando o Egito pôs um Exército hostil no Deserto do Sinai e fez alianças com Síria e Jordânia, Israel foi obrigado a defender-se mais uma vez. No entanto, não tenho dúvidas de que deveríamos ter saído de Gaza e da Cisjordânia logo após o fim do conflito, mesmo que unilateralmente. Outra chance foi perdida em 78. Quando foi assinado o acordo de paz com o Egito, Israel deveria ter obrigado o presidente Anwar Sadat a controlar a Faixa de Gaza, mas os egípcios não se apressaram em ficar com a soberania de Gaza.

GLOBO: Por quê? Mesmo hoje o presidente Hosni Mubarak fecha as fronteiras e nega qualquer ajuda aos palestinos de Gaza...

MORRIS: A Faixa de Gaza sempre foi um celeiro de confusão.
Todos os que administraram a região antes mesmo de 1967 enfrentaram problemas. É um antro de gente pobre, desgostosa e hostil, que nunca aceitou a intervenção de “estrangeiros” em seu território, sejam eles egípcios ou israelenses. Para os egípcios, Gaza forte significa Hamas forte. O Hamas é uma organização dissidente da Irmandade Muçulmana, que é forte na oposição ao governo egípcio e sonha transformar o Egito num país fundamentalista.

GLOBO: O senhor pesquisou durante anos um dos lados obscuros do sionismo, como a expulsão de milhares de árabes de suas casas e as atrocidades cometidas para a criação do Estado de Israel em 1948. Hoje, 60 anos e diversas guerras depois, o senhor justifica tudo isso?

MORRIS: Foi uma decisão internacional criar um Estado judeu na Palestina. Houve 24 massacres, sendo o da aldeia de Deir Yassin, perto de Jerusalém, o mais famoso. Eu pesquisei um tema doloroso que muitos israelenses preferiram ignorar. É claro que não posso justificar ou me identificar com violência, mortes e estupros, mas compreendo que os judeus não tiveram alternativa em 1948. Foram os árabes que começaram uma guerra após a proclamação do Estado e obrigaram os israelenses a reagir. Era uma questão de sobrevivência. O premier David Ben Gurion sabia que era preciso remover as comunidades árabes para que o Estado judeu existisse.

GLOBO: Então o primeiro premier israelense, Ben Gurion, um trabalhista, era a favor da transferência dos árabes, uma visão tradicionalmente da direita?

MORRIS: Claro, desde abril de 48 ele planejou a idéia de transferência. Não há ordens explícitas por escrito e tampouco havia esse conceito, mas esse era o clima geral no país. Era uma coisa subentendida. O Estado judeu não existiria com uma minoria árabe em seu território. E Ben Gurion estava certo, não condeno suas atitudes. O condenável é que, depois dos massacres, Ben Gurion calou-se. E os culpados não foram punidos.

GLOBO: Alguns analistas crêem que o fracasso em alcançar a paz pode levar os palestinos a mudar de estratégia, exigindo ser incorporados a Israel, que se transformaria num Estado binacional. Essa possibilidade existe?

MORRIS: Sim. É um dos maiores perigos enfrentados por Israel. Se a ocupação na Cisjordânia for mantida, demograficamente não seremos mais um Estado judeu. Mas não acredito que os palestinos se transformariam em israelenses, eles viveriam aqui, mas sem cidadania. Sou um defensor da idéia de dois Estados para dois povos, pois é a única alternativa para a expulsão dos israelenses, dos palestinos ou a destruição total. Infelizmente nesta geração pelo menos de 30% a 40% do público dos dois lados não aceitam esta solução. Sempre depois de uma pequena trégua, o terror e o conflito voltarão. Estamos condenados a viver sob a espada.

GLOBO: Para um intelectual de esquerda, o senhor soa um tanto direitista e até mesmo pessimista...

MORRIS: Estou tentando ser realista. Sei que não é politicamente correto, mas tudo que é politicamente correto envenena a História e impede nossa capacidade de enxergar a verdade. Eu me identifico com o filósofo Albert Camus. Ele era esquerdista e muito ético, mas, quando se referia ao problema da Argélia, mudava de tom. Preservar seu povo era mais importante que valores universais de moral e ética. Há um choque de civilizações em curso no mundo. O Islã e sua atitude bárbara com relação à liberdade, à democracia e à vida humana luta contra o mundo ocidental. O conflito israelensepalestino é somente uma vertente dessa guerra.

Infanticídio

DENIS LERRER ROSENFIELD
O Brasil está sendo tão acometido da sanha do politicamente correto que o olhar de muitos não consegue ver coisas que acontecem ao nosso redor. Assim, há em curso uma tentativa de resgate de nossa História que está escorregando no seu contrário, como quando os indígenas são vistos segundo a ótica do “bom selvagem”, no sentido de Rousseau.

A política indigenista aí enraizada, com apoio explícito de movimentos ditos sociais, termina por pactuar com comportamentos que atentam diretamente contra a própria Constituição.

Em nome do relativismo moral, da igualdade entre todas as culturas, comportamentos dos mais inusitados, para não dizer bárbaros, são admitidos.

Há vários relatos de infanticídios entre as populações indígenas, que são simplesmente tolerados, se não explicitamente admitidos, em nome da igualdade entre culturas. As causas podem ser as mais variadas, desde a existência de gêmeos, até a escolha de sexos, passando pelos mais distintos motivos. Em terra ianomâmi, tão celebrada como exemplo de política indigenista, tudo indica que se trata de uma prática comum.

Observe-se que esses índios são os que vivem mais à parte do contato com os civilizados, embora em muitas aldeias existam postos da Funai e da Funasa. Habitam um imenso território e, no entanto, vivem subnutridos, o que é visível à simples observação dos homens e das mulheres.

O argumento de que amplas extensões de terras são fundamentais para a sua reprodução física parece não se sustentar, dadas as suas condições precárias de vida. A ideia do bom selvagem em condições idílicas parece ser mais um produto ideológico da Funai, do Cimi e dos movimentos sociais em geral.

Numa das aldeias é comum o relato do infanticídio enquanto prática cultural dessas populações.

Nas palavras de um interlocutor: matar ou não um recém-nascido é uma “decisão dos pais”.

Ou seja, cabe ao livre arbítrio dos pais manter ou não em vida um recém-nascido, não havendo nenhuma lei que se sobreponha a esta. Neste sentido, eles se situariam fora ou acima da Constituição brasileira, que assegura o direito à vida. Os argumentos apresentados podem ser vários, desde o tamanho da roça até o fato de os indivíduos do sexo masculino serem privilegiados, com a morte conseqüente de recém-nascidos do sexo feminino.

Imaginem se tal prática fosse universalizada, tornandose válida para todos os brasileiros? Ora, quem sustenta o infanticídio como sendo apenas uma prática cultural compactua, na verdade, com um crime severamente punido pela legislação brasileira. Os indígenas são, assim, tratados como se não fossem brasileiros, a lei não se aplicando a eles. Temos aqui um evidente paradoxo: como a Constituição brasileira não se aplicaria a eles, estando suas aldeias situadas em território nacional, e sendo auxiliados e mesmo apoiados por instituições do Estado? Como pode uma cláusula pétrea ser relativizada desta maneira? Ainda numa outra aldeia, da mesma tribo, há relatos de que o infanticídio seria cometido com As mulheres vão para o mato antes do parto, costumam ter seus filhos sozinhas, voltando, depois, sem o recém-nascido. A morte é feita por sufocamento, com a mãe asfixiando a criança no chão, com o pé. A situação não poderia ser mais escandalosa, pois esse tipo de conivência contraria frontalmente os princípios do cristianismo e, de modo mais geral, de toda a Humanidade.

Os princípios mesmos do Evangelho são frontalmente desrespeitados. Como pode uma prática dita cultural se sobrepor a um princípio universal? Salvo se partirmos de uma outra posição, a saber, a inexistência de princípios universais, o que equivaleria a remeter toda a Humanidade à barbárie. Por que não reintroduzir, então, a antropofagia, prática que foi comum a determinadas tribos da História brasileira, em nome da “igualdade” entre diferentes culturas? A situação deveria suscitar a indignação moral.

Em nome de uma “prática cultural”, haveria conivência com o assassinato de recém-nascidos, como se esta prática devesse ser “culturalmente” preservada. Ou ainda, em nome do “estruturalismo”, é como se devêssemos abdicar de nossa capacidade de julgar. No entanto, parece haver uma tergiversação geral sobre o assunto, envolvendo as diferentes autoridades envolvidas. Trata-se de uma manobra propriamente política junto à opinião pública brasileira, que desaprovaria tal prática se dela tivesse conhecimento. Vendem, porém, um outro produto, o de que os indígenas são “bons selvagens”, havendo uma harmonia natural entre eles, como se o assassinato, por exemplo, fosse fruto do mundo civilizado. Para que possam guardar as suas respectivas posições de poder, continuam insistindo nesta idéia rousseauniana ao arrepio completo da verdade.

A opinião pública condena severamente o infanticídio.

Uma menina, que teria sido assassinada pelo pai e pela madrasta, atirada de um edifício, ocupou durante semanas o noticiário radiofônico, televisivo e impresso do país, causando indignação geral. Produziu uma verdadeira comoção nacional.

Outros casos são também relatados com detalhes, produzindo uma intensa reação e suscitando fortes emoções. Mesmo criminosos, nos presídios, não compactuam com essa prática, procurando eliminar fisicamente os que realizam tais atos. O próprio “código” dos criminosos exclui essa prática, por se colocar fora dos parâmetros de qualquer tipo de humanidade. Por que seria ela tolerável entre os indígenas? No fundo, o que está em questão, para aqueles que defendem tais posições ou são omissos em relação a elas, é o medo da perda de suporte junto à opinião pública. Se fossem mostrados coniventes e cúmplices com tal prática, perderiam sustentação e seriam forçados a abdicar de suas posições ideológicas e políticas.

Eis por que o ocultamento é aqui a regra.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O significado de Mumbai

Thomas Sowell

Será que os horrores perpetrados pelos terroristas islâmicos em Mumbai causarão alguma ponderação naqueles que estão ansiosos por enfraquecer o sistema de segurança americano atualmente em vigor, incluindo-se a interceptação de chamadas telefônicas internacionais e a prisão de terroristas em Guantánamo?

Talvez. Mas nunca subestimemos a cegueira partidária em Washington ou na grande mídia – para quem, se foi a administração de Bush que fez, então está errado.

Contrário a algumas das noções mais sentimentais do que seja um governo, sua função é a proteção do povo. Ninguém, em 11 de setembro de 2001, pensou que não veríamos de novo algo semelhante, neste país, por sete longos anos.

Muitos parecem ter esquecido como, a partir de 11 de setembro, cada grande evento nacional – o Natal, a World Series, o Ano Novo, o Super Bowl – estava sob a sombra do medo de que esta seria a oportunidade para um novo ataque terrorista.

Eles não atacaram novamente, embora eles atacassem na Espanha, Indonésia, Inglaterra e Índia, dentre outros lugares. Alguém imaginou que isso tenha sido porque eles não queriam atingir novamente os EUA?

Poderia isso ter algo a ver com todas as precauções de segurança contra as quais os esquerdistas reclamam tão amargamente, que vão da interceptação de chamadas telefônicas internacionais à extração, à força, de informações de terroristas capturados?

Muitas pessoas se recusam a reconhecer que benefícios têm custos, mesmo se esses custos signifiquem que não se tenha mais sigilo em ligações telefônicas internacionais do que aquele que você tem ao enviar e-mails, num mundo em que hackers de computador abundam. Há pessoas que se recusam a abrir mão de algo, mesmo para salvar suas próprias vidas.

Um observador muito perspicaz da deterioração das sociedades ocidentais, o escritor britânico Theodore Dalrymple, disse: “Essa fraqueza mental é decadência e, ao mesmo tempo, uma manifestação de uma suposição arrogante de que nada pode nos destruir.”

Há um crescente número de coisas que podem nos destruir. O Império Romano durou muito mais que os EUA têm durado, e ainda assim foi também destruído.

Milhões de vidas se deterioraram pelos séculos seguintes, porque os bárbaros que destruíram Roma foram incapazes de substituí-la por algo sequer comparável. É o que acontece com quem ameaça destruir os Estados Unidos atualmente.

A destruição dos Estados Unidos não exigirá bombas nucleares que aniquilem cidades por todo o país. Afinal, a destruição nuclear de apenas duas cidades foi suficiente para forçar o Japão a capitular – e os japoneses tinham muito mais determinação para lutar do que muitos americanos têm hoje.

Quantos americanos estão dispostos a ver Nova York, Chicago e Los Angeles desaparecerem num cogumelo nuclear, em vez de capitular a qualquer exigência odiosa que façam os terroristas?

Tampouco Barack Obama ou aqueles que estarão a sua volta em Washington mostram quaisquer sinais de encararem seriamente a necessidade de antecipar tais escolhas terríveis, por meio de ações que tenham alguma chance realística de prevenir um Irã nuclearizado.

Terroristas fanáticos com bombas nucleares: eis o ponto de não-retorno. Nós, nossos filhos e netos viveremos à mercê de impiedosos, que têm uma história de sadismo.

Não há concessões que façamos que nos libertem de terroristas plenos de ódio. O que eles querem – o que eles precisam ter para satisfazer seu próprio auto-respeito, num mundo em que são humilhados por estarem tão visivelmente séculos atrás do Ocidente em tantas áreas – é nosso rebaixamento humilhante, incluindo-se a auto-humilhação.

Mesmo nos matar não será suficiente, tal como matar judeus não foi suficiente para os nazistas, que primeiro tiveram de submetê-los a humilhações terríveis e a um processo de desumanização em seus campos de extermínio.

Esse tipo de ódio pode não ser familiar a muitos americanos, mas o que aconteceu em 11 de setembro deveria nos dar uma pista – e um alerta.

Os indivíduos que pilotaram aqueles aviões em direção aos prédios do World Trade Center não poderiam ter sido convencidos do contrário por qualquer tipo de concessão, nem mesmo as centenas de bilhões de dólares que estamos usando hoje para salvar a economia.

Eles querem nossa alma – e se eles estão determinados a morrer e nós não, eles a terão [1].

[1] O Islã ameaça o Ocidente há bem mais de um milênio. Lembremos, com Hilaire Belloc [As Grandes Heresias, Capítulo 3: A grande e duradoura heresia de Maomé], que “Menos de 100 anos antes da Guerra de Independência Americana, um exército muçulmano estava ameaçando destruir a civilização cristã [européia], e teria conseguido caso o rei católico da Polônia não tivesse destruído aquele exército, nos arredores de Viena.” (N. do T.)

Publicado por Townhall.com

Tradução e notas de Antônio Emílio Angueth de Araújo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Presidente quer substituir até 2010 texto que foi promulgado sob Figueiredo, em 1983


Projeto tentará enquadrar terroristas e redefinir o conceito de crime político; preocupação é preservar os movimentos sociais


CLAUDIO DANTAS SEQUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu aos ministros Tarso Genro (Justiça) e Jorge Felix (GSI) que elaborem um substituto para a Lei de Segurança Nacional. Até 2010, Lula quer ter em mãos um novo texto e poder revogar a lei 7.170, promulgada em 1983 pelo general João Figueiredo, o último presidente militar.

Segundo a Folha apurou, o projeto de lei que está sendo esboçado por um grupo interministerial buscará enquadrar o terrorismo e redefinir o conceito de crime político, delimitando as ações dos movimentos sociais do país.

As discussões estão amadurecendo e algumas propostas foram apresentadas ontem em reunião do grupo em Brasília. Por enquanto, o texto está sendo chamado de "Lei de Soberania Nacional e do Estado Democrático de Direito" e terá vinculação direta às diretrizes de segurança interna contidas na Estratégia Nacional de Defesa (END), apresentada a Lula no último dia 11 pelo ministro Nelson Jobim (Defesa). O objeto da nova lei serão as ameaças à soberania nacional, à integridade territorial e às instituições democráticas.

Integrantes do grupo técnico acham que o principal desafio é definir claramente o que é ou não ameaça. Na lei de Figueiredo, o artigo 20 define como crime "praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas". Prevendo prisão de 3 a 10 anos para o criminoso.

Apesar de arcaica, a lei 7.170 foi usada em 2006, quando o MSLT (Movimento de Libertação dos Sem-Terra) invadiu o Congresso Nacional. A Justiça Federal instaurou ação penal na qual 116 militantes do grupo foram acusados de praticar "crime político".

GSI
A cúpula do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) insiste na necessidade de tipificação do terrorismo, um tema considerado sensível para o Ministério da Justiça. No entendimento geral do governo, o ato terrorista é aquele capaz de infundir pânico generalizado e desestabilizar o regime democrático. Os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, em 2006, foram classificados pelo presidente Lula como terrorismo. Até hoje, no entanto, as Nações Unidas não conseguiram chegar a uma definição de consenso. Na Câmara, há vários projetos de lei sobre o tema.
Inimigo

Para o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Pedro Abramovay, a nova lei "não pode fetichizar atitudes que já são criminosas, como o dano ao patrimônio público e a formação de quadrilha". Segundo ele, "é preciso tomar um cuidado enorme para não criminalizar os movimentos sociais e dar conta da pluralidade da sociedade atual".

"É imprescindível que a nova lei reflita o atual grau de maturidade da democracia brasileira. Não pode ter esse caráter de cima para baixo, que olha para os cidadãos e os divide entre amigos e inimigos", diz Abramovay. Segundo ele, a nova regra também vai "controlar os detentores do poder".
Abramovay foi designado para coordenar o grupo técnico responsável pela elaboração do projeto de lei. Participam da redação do novo texto as pastas de Justiça, Casa Civil, Relações Exteriores, Ciência e Tecnologia, Planejamento e Defesa, além de GSI, Advocacia Geral da União e Forças Armadas.

Já houve outras tentativas de substituição da lei 7.170. A mais recente foi o projeto de lei 6.764/ 2002, que voltou a tramitar em março. A substituição da Lei de Segurança ocorre paralelamente ao debate sobre a revisão da Lei da Anistia. "A Lei de Segurança Nacional é um tabu e vamos nos desfazer dele", diz Abramovay.

sábado, 13 de dezembro de 2008

POBRE MENINO RICO

Renato Maurício Prado - O Globo (trecho)

Quanto vale um sonho? Há fantasias impossíveis, por custos ou questões intangíveis: as amorosas, por exemplo — a bela tenista Maria Sharapova nunca me deu bola! Mas, falando sério, mesmo vivendo num mundo cada vez mais capitalista, ainda há coisas que o dinheiro não compra — como lembra aquela ótima propaganda, antes de arrematar: “para as outras existe cartão de crédito”..

O preâmbulo, claro, é para discutir a questão de Ronaldo Fenômeno e sua opção pelo Corinthians.

Escolha válida, sob o ponto de vista estritamente profissional — embora com deslizes éticos e, acima de tudo, de educação. Mas isso é outra história, que abordarei mais adiante.

Voltemos à questão do sonho. Desde menino, Ronaldo Nazário acalentava o desejo de jogar no Flamengo — time do seu coração.

Quis o destino que do São Cristóvão (onde começou, como amador) se transferisse para o Cruzeiro e de lá para a Europa, onde acumulou fortuna e fama.

Agora, eis que, no apagar das luzes de sua gloriosa carreira, surge enfim a oportunidade de realizar o sonho de menino.

Multimilionário (com mais de 100 milhões de euros na conta, conforme ele próprio gosta de contar) e em recuperação de nova e complicada cirurgia no joelho, que lugar poderia acolhê-lo com mais carinho? Pois foi, justamente, na Gávea, sede do Flamengo, que Ronaldo iniciou o trabalho de recuperação e reencontro com a bola.

Lá, também, logo no primeiro dia, ouviu do presidente Márcio Braga as boas vindas e a garantia de que, quando resolvesse voltar a jogar o rubro-negro moveria céus e terras para atender aos seus anseios e contratálo por salário à altura de seu valor no mercado.

— É só dizer quando você se sentir em condições e a gente discute e dá um jeito! A bola está contigo. Até lá, o clube é seu. Use e abuse — disse Márcio Braga.

— Jogar no Flamengo sempre foi o meu sonho. Ele é o favorito. Está na “pole position” (para acertar a contratação) e eu quero estar muito bem (fisicamente) para merecer vestir a camisa rubro-negra. Decido em janeiro! — anunciou Ronaldo, no “Bem, Amigos”, no Sportv, após três meses de treinos.

De lá pra cá, entretanto, o Fenômeno, curiosamente, desapareceu da Gávea.

A mim, explicou que sofrera uma contusão leve, que o impedia de treinar e, por isso, passara a fazer fisioterapia em sua própria clínica.

No Flamengo, as versões foram outras: houve quem falasse em crise familiar (sua mulher estaria querendo voltar a morar em Paris), houve quem desconfiasse que o problema era mais sério — e a possibilidade de encerramento da carreira ganhou força quando, após se arrastar em campo, por apenas 15 minutos, no amistoso beneficente entre seus amigos e os de Zidane, realizado no mês passado, no Marrocos, o próprio Ronaldo (bem acima do peso) se disse em dúvidas sobre o futuro.

Futuro resolvido esta semana, meio de sopetão e sem que o jogador nem sequer tivesse retomado os treinamentos ou a conversa com os dirigentes do Fla.

Detalhe: o dinheiro que Ronaldo vai ganhar no Parque São Jorge (e que dificilmente será assim tão maior do que o Flamengo poderia lhe pagar, com ações de marketing do mesmo teor) não mudará em nada a sua vida — em aplicações banais, com o que já possui, ele fatura, por mês, mais de 1 milhão de euros.

Isto, fora os três contratos de publicidade que ainda tem em vigor e independem de onde jogará (TIM, Nike e Ambev).

Resumo da ópera: por maior que seja o sucesso dos planos corintianos, o resultado final representará uma ninharia perto do patrimônio Fenomenal.

Aí, volto a questão básica.

Quanto vale um sonho? Há quem trabalhe a vida inteira para juntar dinheiro e realizar o seu. E o Fenômeno ainda iria ganhar (algo semelhante ao que lhe pagarão agora) para isso.

Mas mesmo não precisando de nem mais um tostão para realizar até as fantasias de suas gerações futuras, Ronaldo abriu mão daquele que dizia ser um dos seus maiores sonhos.
Pobre menino rico! Não conseguiu entender a propaganda: cartão de crédito ele já tem de sobra...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Onda nacionalista frustra planos espanhóis na América Latina

Thomas Catan e John Lyons
The Wall Street Journal, de Madri e São Paulo

Nos últimos anos, empresas espanholas despejaram dinheiro na América Latina. Elas compraram na região, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, empresas de serviços públicos, companhias aéreas e outros negócios privatizados em leilões governamentais.

Mas algumas dessas apostas azedaram, agora que vários governos populistas latino-americanos estão criticando os "neo-conquistadores" e expropriando seus negócios.

Ontem, a Câmara argentina aprovou um projeto de lei do governo para estatizar duas linhas aéreas pertencentes ao maior grupo do ramo na Espanha, o Grupo Marsans SA. A Argentina quer pagar à Marsans apenas 1 peso (30 centavos de dólar) pela Aerolíneas Argentinas SA e uma empresa aérea menor, a Austral. A lei agora vai a votação no Senado.

"O governo argentino está nos perseguindo", diz Vicente Muñoz, diretor corporativo da Marsans.

A Marsans não é a única empresa espanhola a ser expropriada por governos populistas. A grande petrolífera Repsol YPF SA, o Banco Bilbao Vizcaya Argentaria SA (BBVA) e o Banco Santander SA tiveram seus ativos nacionalizados, ou seus contratos rescindidos, na Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador.

Essa reviravolta da sorte — que fez o Santander e outras empresas recuarem para países latino-americanos com melhores perspectivas econômicas — demonstra uma importante mudança na região. Não faz muito tempo, os problemas econômicos ou políticos de um país latino-americano não atingiam os negócios nos países vizinhos. Agora, porém, os investidores estrangeiros estão mais astutos. Eles têm evitado países que defendem a intervenção estatal na economia e investido em outros mais pró-mercado. Quase 80% dos US$ 106 bilhões em investimentos estrangeiros diretos na região em 2007 — uma soma recorde — foram investidos em países com políticas favoráveis às empresas: Brasil, México, Chile e Colômbia.

As empresas espanholas não são as únicas atingidas. Mas elas têm protagonizado um grande número de choques com governos nacionalistas.

No mês passado o governo argentino tomou US$ 23 bilhões em fundos privados de pensão de vários bancos, inclusive o BBVA. O presidente venezuelano Hugo Chávez nacionalizou os negócios do Santander no país. A Repsol foi obrigada a refazer contratos, com termos menos favoráveis, na Venezuela, Bolívia e Equador — no caso da Bolívia, isso ocorreu depois que suas instalações de gás natural foram cercadas por tropas do exército.

Com dois terços de sua produção global e metade de suas reservas de energia vindas da Argentina, a Repsol é a mais exposta ao risco representado pela América Latina. A firma está tentando se livrar daquilo que os analistas chamam de "a pedra da Argentina amarrada ao seu pescoço" — a percepção de que a Argentina possa expropriar a petrolífera YPF, ex-estatal, que foi vendida para a Repsol há dez anos.

Na tentativa de se proteger, a Repsol isolou o seus investimentos na América Latina em uma entidade separada, e vendeu parte dela a um banqueiro argentino com estreitos vínculos com a presidente Cristina Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor.

A Aerolíneas Argentinas tem tido muitos problemas. Depois de passar boa parte da sua existência como estatal, em 1990 ela foi privatizada e vendida à espanhola Ibéria.

As relações entre os funcionários da empresa e os investidores espanhóis sempre foram turbulentas, e a empresa aérea acabou pedindo concordata no início de 2001. Naquele ano a espanhola Marsans assumiu o controle da Aerolíneas, com o compromisso de investir US$ 50 milhões. Nos cinco anos seguintes, a Aerolíneas gradualmente melhorou sua posição, apresentando lucros três anos seguidos.

No fim de 2005, porém, as relações entre a Marsans e a equipe da Aerolíneas se deterioraram. Funcionários e líderes sindicais acusaram a Marsans de não cumprir seus compromissos financeiros. Os que apoiavam a Marsans acusaram o governo de sabotar a empresa aérea. O governo fixou preços, apoiou aumentos salariais e obrigou a empresa a manter vôos em rotas não lucrativas, dificultando assim a possibilidade de um balanço positivo.

Entre 2002 e 2008, segundo Muñoz, da Marsans, o custo dos combustíveis subiu 300%, os salários mais de 200% e os impostos, 500%. Ao mesmo tempo, o governo lhe permitiu elevar as tarifas em apenas 20%

Assim, em julho, a Marsans aceitou que o governo assumisse o controle da Aerolíneas, iniciando um período de 60 dias para negociar os termos. No entanto, não se chegou a um acordo. O Credit Suisse, que prestava consultoria à Marsans, avaliou a empresa inteira — que incluía a Aerolíneas e a Austral — entre US$ 330 e US$ 510 milhões. O governo argentino, porém, disse que empresa não valia nada, afirmando que carrega um fardo de US$ 833 milhões em dívidas.

Muñoz diz que nunca vai recomendar a outro executivo espanhol que invista na Argentina. "Nunca na vida. É loucura."

(Colaborou Daniel Michaels, de Bruxelas)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

¿Por qué Chávez necesita la enmienda ya?

Por Alejandro Peña Esclusa (*)

Muchos no se explican por qué, luego de las elecciones del 23N, Hugo Chávez se ha acelerado tanto, y de pronto propone, de manera abierta y sin tapujos, la reelección presidencial.

El proyecto de Chávez no cuenta con una estructura que lo respalde por motivaciones ideológicas o morales. La mayoría de sus seguidores los mueven razones económicas: los más pobres las misiones; los boli burgueses y la dirigencia del PSUV los contratos; y los aliados internacionales los cuantiosos aportes que Chávez le da, ya sea en forma de donaciones abiertas o ya sea en forma de maletines encubiertos.

Chávez está consciente de que el derrumbe del precio del petróleo pone en peligro su proyecto. Sabe muy bien que a mediados de año las reservas internacionales habrán disminuido sustancialmente y que el país estará encendido por los cuatro costados, no sólo por la disidencia política, sino sobre todo por la crisis económica y social.

Chávez necesita prepararse desde ahora para ese momento, atornillándose en el poder con la enmienda constitucional. Si bien es cierto que la enmienda le asegura su reelección indefinida, también le proporciona algo igualmente importante: una excusa para imponer, de una vez por todas, el Socialismo del Siglo XXI .

Chávez dirá que el pueblo le ha dado un mandato para gobernar sin límites y sin condicionamientos. Interpretará la enmienda como una patente de corso para destituir a alcaldes y gobernadores de oposición, para aprobar leyes totalitarias, para cerrar todos los medios de comunicación adversos, y para encarcelar a sus críticos.

En resumen, la enmienda le prepara el camino para poder gobernar como un tirano, y para poner en práctica una represión feroz, justo cuando la crisis económica arrecie.

Por eso, la batalla para evitar la enmienda no es una escaramuza más, sino que define el resultado de la guerra. De esta batalla depende el futuro de la democracia y de la libertad, no sólo de Venezuela, sino de América Latina, porque los clones de Chávez, como Evo Morales, Rafael Correa, Daniel Ortega y Mauricio Funes, dependen directamente de su permanencia en el poder.

Es de vital importancia que la oposición no se plantee la enmienda como una elección más, sino como un golpe de Estado; en primer lugar, porque ya fue rechazada por el voto popular; y en segundo lugar, porque busca acabar con los pocos espacios democráticos que todavía quedan.

Una situación tan grave como la que está planteada, requiere de un esfuerzo muy superior al de una elección. Por eso, no es suficiente el consenso de los partidos políticos. Hace falta la participación y coordinación de todos los sectores democráticos del país.

(*) Fonte: http://www.fuerzasolidaria.org/WebFS/Escritos/PorQueChavezNecesitaLaEnmiendaYa.html

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Cartas dos leitores do Globo sobre indenizações nas favelas

O Globo, 2 de dezembro de 2008

Governador, presidente, já que estão pagando R$ 100 mil por imóveis em favelas do Rio, quero vender minha casa para o governo do estado. Se não, peço humildemente que mandem uma fatia desse PAC para a Região Oceânica de Niterói, pois aqui asfalto não há, isto é, somente no papel e nas promessas, não é, prefeito? Águas pluviais? Em dias de chuva só de barco ou jipe. Esgoto? Sim, temos valas negras a céu aberto, sem falar na dengue. Por que não saio daqui? Não tenho para onde ir, senhores. Todas as economias, conseguidas com muito suor e esforço, que sobraram depois de pagar tantos impostos, foram para comprar esse imóvel, que vai se desvalorizando a cada dia diante de todo esse descaso. E, ao contrário da população geologicamente verticalizada, eu pago luz (inclusive pelos “gatos” dessas comunidades), além de água e muitos, mas muitos impostos.
ANDRÉ FLAUZINO (por e-mail, 1/12), Niterói, RJ

Quer dizer que, após invadir um morro, destruir a vegetação nativa, pôr em risco a população e a cidade, o cidadão receberá R$ 100 mil de indenização e ainda continuará morando no morro? - CELSO FREDERICO FREITAS (por e-mail, 1/12), Rio

Moro num apartamento próprio, pago condomínio, luz, gás, telefone, internet banda larga, TV a cabo, IPTU. Com esse governo generoso assim, tão bonzinho, acho que vou abandonar meu apartamento e morar numa “comunidade” — esse é o nome que se dá à favela. Quem sabe não arranjo R$ 100 mil pelo meu barraco? E com a vantagem de lá não ter nenhuma despesa. - JOÃO SEBASTIÃO DE ALMEIDA (por e-mail, 1/12), Rio

É inadmissível que o estado pague indenizações para os moradores dos morros no valor de R$ 100 mil e R$ 60 mil. Eles estão morando em algo que não é deles, compram de alguém que se diz dono, ocupam ilegalmente, possuem escritura de mentirinha e, como recompensa por todos os abusos feitos — e para o estado conseguir algo que é seu de fato — ganharão indenizações mirabolantes e abusivas. O estado é conivente, é impotente com as farras das construções clandestinas e desastroso ao gastar dinheiro do contribuinte. - TERESA ABREU DE ALMEIDA (por e-mail, 1/12), Rio